Exames no cérebro revelam ineficácia dos alertas nos
maços de cigarro e semelhanças entre consumo e religião
O
publicitário e consultor americano Martin Lindstrom sempre se interessou pelos
consumidores fanáticos por marcas. São os obcecados por Harley-Davidson, os
devotos da cerveja Guinness ou os admiradores da personagem Hello Kitty. Os fãs
da Apple chegam a viajar pelo mundo para acompanhar as inaugurações das lojas da
companhia americana. Há quatro anos, intrigado pelo comportamento quase
religioso desses consumidores, resolveu investigar o que se passa em suas
mentes. Com a assistência de neurocientistas, submeteu alguns desses fãs a
exames de ressonância magnética. Fez o mesmo com uma turma de cristãos
fervorosos. Suas suspeitas se confirmaram. Ao expô-los a objetos de sua devoção
– como imagens de Coca-Cola e do papa –, descobriu que as mesmas áreas do
cérebro eram ativadas. Os dois grupos de voluntários, aparentemente tão
diferentes, compartilhavam o mesmo tipo de experiência neurológica.
O uso de sexo em comerciais pouco atrai, a não ser quando
provoca uma boa polêmica, revela pesquisa
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Lindstrom resolveu ampliar suas pesquisas e chegou a
conclusões que confirmam algumas verdades do marketing e derrubam outras
tantas, resultados expostos na obra Buy-ology: Truth and Lies about why We Buy
(“Consumo-logia: verdades e mentiras sobre por que nós compramos”), que acaba de
ser lançada nos Estados Unidos. Foram três anos de estudo com 2 mil pessoas que
se submeteram a exames de
ressonância magnética – um esforço que consumiu US$ 7
milhões, bancados por empresas privadas, como o laboratório GlaxoSmithKline e o
grupo de mídia Bertelsmann. Ao registrar as reações do cérebro dos voluntários,
ele pôde constatar que muitas de suas decisões de consumo ocorrem em nível
inconsciente, uma realidade que não consegue ser desvendada pelas tradicionais
pesquisas de marketing. Algumas das descobertas relatadas em seu
livro:
Maços de cigarros Nas pesquisas de opinião, os
consumidores afirmam que fotos agressivas nos maços conseguem alertá-los sobre
os riscos de fumar. Os registros da ressonância magnética indicam o oposto, ou
seja, as mensagens ativam a área do cérebro relacionada ao desejo e estimulam
ainda mais a vontade de fumar.
Merchandising Funciona
quando o produto está integrado à trama de um programa de TV ou de um filme. É o
que ocorre com ET, o clássico de Steven Spielberg, quando o garotinho Elliott
usa balas de uma marca americana para atrair o alienígena ao seu quarto. O
simples aparecimento de um produto no fundo de uma cena – como as embalagens da
FedEx que surgem em segundo plano no filme Casino Royale – não deixa nenhum
registro perene na mente do consumidor, segundo a ressonância
magnética.
Sexo O uso de imagens de caráter sexual tem
um efeito reduzido. O consumidor presta mais atenção nas imagens do que no
produto. A exceção são as campanhas que criam polêmica, como as da marca
americana Calvin Klein, que nos anos 80 usou falas sensuais da então adolescente
Brooke Shields para vender jeans na TV.
Propagandas na
TV São influentes, é claro. Mas os experimentos de Lindstrom revelam
que já não têm o poder que exerciam antes. Por quê? Aos 66 anos, a maioria das
pessoas terá assistido, pelas contas do autor, a 2 milhões de comerciais. É cada
vez mais difícil criar uma memória duradoura de uma marca em suas
mentes.
Os estudos de Lindstrom se somam a outras pesquisas de marketing
que usam equipamentos de ressonância magnética. Uma das estrelas do chamado
neuromarketing é o neurocientista americano Read Montague, que recentemente
revelou por que os consumidores americanos tendem a preferir Pepsi a Coca-Cola
nos testes às escuras, sem saber a identidade da bebida, mas dão preferência à
Coca-Cola quando sabem o que estão bebendo. Os exames de ressonância magnética
mostraram que, neste caso, é ativado o córtex pré-frontal medial, a região do
cérebro onde são feitas as operações cognitivas mais sofisticadas, e o
hipocampo, uma das áreas responsáveis pela memória. As campanhas da Coca
conseguem associar a bebida, de acordo com Montague, a sensações de segurança e
de inocência infantil.
Apesar de o livro de Lindstrom estar há pouco
tempo nas prateleiras, já gerou um debate em jornais, revistas e blogs sobre as
implicações éticas do uso das imagens do cérebro para aumentar a venda de
produtos. O marketing deixa de apelar para a reflexão consciente do
consumidor e vai direto a seu inconsciente. Lindstrom diz que suas pesquisas
buscam ajudar as empresas a entender melhor os desejos dos consumidores e usar
esse “conhecimento para finalidades generosas”. Resta saber se as empresas
usarão a ciência com esses mesmos propósitos.
| Ressonância magnética
– Exame que revela imagens internas de órgãos do corpo humano. A
primeira máquina, criada a partir de pesquisas das universidades Harvard e
Stanford, foi criada em 1977. Um exame dura de 20 a 90 minutos
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| Ilustrações Julian Gallasch |