PROIBIDO POR LEI - Ousadia de
fumante é testada em locais públicos de Natal“É proibido fumar, diz o aviso que eu li”. Iniciar uma reportagem com a
conhecida frase de uma das músicas de Roberto Carlos não é nem um pouco
criativo. Mas é difícil resistir ao apelo quando o assunto é a tolerância
das pessoas ao cigarro em locais onde é proibido fumar. Em tempos de polêmica
sobre fumo em ambientes coletivos fechados, a Tribuna do Norte testou a reação
das pessoas ante à ousadia de um fumante.
O produtor cultural e
jornalista Marcílio Amorim, 30 anos, é um fumante que se considera educado. Ele
não sente “fissura” de fumar em locais proibidos e passa horas sem acender um
cigarro, se não puder se deslocar a um ambiente apropriado. No
entanto, aceitou o desafio de infligir a lei municipal nº 5.700/2005, que
relega o fumante aos fumódromos das empresas e dos locais públicos. Como um
fumante politicamente correto, ele ficou nervoso ao acender o cigarro em locais
impróprios para a prática.
Dos três lugares que percorremos, no primeiro
local a ousadia foi tamanha porque ele se posicionou em plena praça de
alimentação, em um dos shoppings mais freqüentados da cidade. Sentado de costas
para uma placa informando a proibição, ele tomou um café, falou ao celular e
acendeu o cigarro. Após um minuto e meio baforando, uma segurança veio em sua
direção e gentilmente lhe avisou acerca da proibição. O “ator” ainda
argumentou, dizendo que estava nervoso, no que ela respondeu que existem áreas
próprias para fumantes no estabelecimento.
A segunda parada foi uma
instituição financeira, onde também é expressamente proibido fumar. Mesmo
diante de placas proibitivas, e ignorando a presença de clientes, Marcílio
acendeu novamente um cigarro. Dessa vez, não houve abordagem dos
seguranças ou dos próprios clientes. Foram cerca de quatro minutos
poluindo o ar do banco. A terceira cena foi realizada na Assembléia
Legislativa (AL), no local situado ao lado contrário à placa. Porém, logo na
entrada, quem entra na instituição pode visualizar o aviso.
No saguão da
AL, o fumante relembrou seus velhos tempos de performer, quando fazia
telegramas encenados. Ele faz de conta que está vendo o mural e as telas da
galeria do órgão público, enquanto acende e fuma um cigarro por longos e
angustiantes quatro minutos e meio.
O local escolhido, um corredor de
circulação, estava bem movimentado, mas as pessoas pareciam não se
incomodar. Ao final das baforadas, quando o ar já estava impregnado com a
fumaça, algumas pessoas passavam com a mão no nariz, como se quisessem evitar o
cheiro.
Os policiais militares que fazem a segurança e cuidam da
recepção não disseram nada. Para ter a certeza da infração, a repórter
perguntou ao guarda se a placa de proibição estava valendo para todos os
ambientes. A resposta foi afirmativa.
Lá fora, na praça em frente
à Assembléia Legislativa, duas pessoas que circulavam na repartição pública
durante a encenação do cigarro foram abordadas pela reportagem. O advogado
Ednardo Gregório Azevedo, 27 anos, disse que não gosta de reclamar, acha até que
é comodismo de sua parte. “Eu penso que vou constranger as pessoas e não falo
nada”. Em compensação, em casa ou no carro, ele manda direitinho o recado de “é
proibido fumar”, porém, nas festas em família, tolera os fumódromos.
“Tenho tios e primos que fumam. Meu pai não gosta de cigarro, ele é do tipo que
reclama quando começa a se sentir incomodado”.
A farmacêutica Eva
Daniele Oliveira, 29 anos, afirma que não pede para o fumante apagar o cigarro
porque alguns ficam ofendidos. “Eu tinha um mercadinho e muita gente entrava
fumando. Como estavam nos respondendo mal, paramos de reclamar, apenas fazíamos
gestos de desagrado, colocando a mão sobre o nariz”.
Mestrando faz estudo com dois grupos
Ver tantas
pessoas fumando incomodam o mestrando em psicobiologia Álvaro Guedes. Ele estuda
comportamento e decidiu aprofundar-se em pesquisas relacionadas ao fumo. No
próximo ano, pretende formar quatro grupos de terapia anti-tabagismo, no Serviço
de Psicologia Aplicada (Sepa), da UFRN. Dois grupos serão voltados para a
comunidade interna do campus universitário, porque o formando em psicologia tem
o objetivo de contribuir para “melhorar a qualidade de vida dos
servidores, alunos e professores”.
O pesquisador explica que o fumante se
deparam com alguns conflitos, internos e externos, até chegar ao ponto de ser um
viciado. Os sinais internos são emocionais e inicialmente estão ligados a
sentimentos negativos. “Geralmente as pessoas estão sentindo raiva, angústia ou
medo e aceitam a sugestão de fumar um cigarro”.
Como o cigarro contém
substâncias que modificam o humor, os recém-ingressos no hábito passam a fumar
também quando estão bem, para se sentir melhor. “A gente classifica uma dessas
essas etapas como crenças aditivas, o que leva as pessoas a sentir necessidade
de uma substância de excitação mesmo que sejam tóxicas”. Álvaro também fala a
respeito das crianças permissivas, que são as desculpas que as pessoas dão para
si mesmas. A terapia anti-tabagista é iniciada com a detecção dos problemas que
dificultam o abandono do vício. O terapeuta observa se existe quadro
depressivo, quais são as crenças que o fumante desenvolveu, se existe
associação com outras drogas (álcool, anfetaminas, barbitúricos). Dependendo do
caso, recomenda-se acompanhamento médico.
Fumantes inveterados
falam sobre o vício que enfrentam
O empresário Flávio Azevedo,
presidente da Fiern, é bastante conhecido por causa de suas opiniões quanto ao
desenvolvimento do RN. Nos bastidores dos negócios e da imprensa, ele também é
lembrado por causa de sua condição de fumante declarado. No ambiente de
trabalho, costuma se comportar igual ao presidente Lula: fuma em sua sala, com a
porta fechada e com o ar-condicionado ligado. “Todos que me conhecem sabem que
eu faço isso, mas se estou recebendo alguém que nunca vi, pergunto se incomoda”.
A dona-de-casa Maria José Nazária, 54 anos, fumava um
cigarro, na praça, quando afirmou que escolhe lugares abertos para fumar.
Ela concorda com a proibição ao fumo em lugares fechados, para coibir a ação de
pessoas que não têm o mesmo comportamento. “Eu fumo há 40 anos e seis quais são
meus limites. Não gosto de fumar em lugares fechados, nem na minha própria casa.
Eu e meu marido respeitamos as crianças que temos em casa”.
A artista Civone
Medeiros se considera uma fumante inveterada. Mesmo assim, consegue passar
longas horas sem acender um único cigarro. “Eu comecei a viajar de avião quando
era permitido fumar nas aeronaves. Quando proibiram, entendi a situação e não
fiquei descontrolada. Procuro um lugar em que seja permitido fumar e pronto, não
fico agoniada”.
“Outro dia eu estava do lado de fora do shopping quando um
homem mandou eu apagar o cigarro. Respondi que estava no meu direito de fumar em
lugar público e aberto”.
Entrevista / Bruna Elizabeth de
Negreiros
A maioria das pessoas que não fumam se incomoda ao
inalar fumaça de cigarro. Com o passar dos tempo, os cidadãos começaram a
reivindicar o direito assegurado de respirar ar puro em ambientes fechados. O
resultado foram as inúmeras leis restritivas e proibitivas quanto ao ato de
fumar. No Brasil, existe a Lei federal nº 9.294/96, e em Natal, a
prefeitura reforçou com a Lei 5.700/2005. Para embasar as discussões acerca das
restrições quanto ao fumo, entrevistamos a advogada Bruna Elizabeth Negreiros.
Caso a lei de restrição total aos fumantes comece a ser discutida
para ser aplicada em todo o País, será que os fumantes podem requerer o direito
assegurado pela constituição de ir e vir?
Os viciados em cigarros,
devem, hoje, ser tratados como doentes, pois, mesmo cientes de seu vício e
consciência dos malefícios trazidos por este, não conseguem largar o cigarro.
Todavia, o fumante, por sua vez, possui o direito de consumir produto lícito.
Assim, acredito que a eventual proibição completa de consumo de produtos
derivados do tabaco em locais públicos violaria também o direito individual de
liberdade do fumante, já que ele, conscientemente, optou pelo consumo daquele
produto, mesmo sabendo o mal que lhe faz. As restrições já vigentes em nosso
ordenamento ao consumo desses produtos já lhe impõem fortíssimos
obstáculos, sendo suficientes para garantir o direito dos não-fumantes de não
serem involuntariamente expostos à fumaça do cigarro.
Como deve ser a abordagem aos fumantes, quando eles estão infligindo
as lei de restrição e proibição?
A abordagem aos fumantes deve ser
feita de uma maneira informativa e educativa, ou seja, o autuante da Vigilância
Sanitária Municipal deve, antes de qualquer coisa, advertir o infrator,
informando-o a respeito da proibição. Ademais, deve cientificar aquele fumante
que o ato que ele está praticando é ilegal, que o local no qual ele está fumando
é coibido por lei e que, o descumprimento da restrição é punível, caso o mesmo
não apague o fumígero ou, ainda, reincida no ato, por ora, ilegítimo. Afinal de
contas, é preciso ressaltar que o fumante é um indivíduo com um vício, que deve
ser ajudado e não desrespeitado ou discriminado pela sociedade.
No caso do fumante não querer se retirar (ou apagar o cigarro), a lei
municipal prevê sanções (incluindo aplicação de multa).Você conhece algum caso
desse tipo?
Na verdade, desconheço demandas judiciais que versem
sobre esse tipo de episódio, porém, acredito que eventos dessa natureza se
repitam diariamente. Como por exemplo, uma pessoa comum que pede para um fumante
apagar seu cigarro, pois o mesmo está incomodando os demais e ele não o faz; ou
o garçom de um restaurante, que pede para o cliente não fumar ali, em ambiente
fechado, entretanto, o fumante se recusa, afirmando que não existe ali aviso de
proibição.
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