SAÚDE - Jonathan Gabriel, 11
meses, está internado com problemas respiratórios
Dos seus onze meses de vida, três deles Jonathan Gabriel passou internado
em hospitais pediátricos, sendo tratado de complicações respiratórias provocadas
pelo fumo passivo. Sua mãe, Maria das Graças Oliveira Medeiros, 19 anos, é
ex-fumante; mas seu marido e sua sogra não largaram o cigarro e até hoje fumam
dentro de casa, poluindo o ambiente doméstico. O pequeno José Érico, de apenas
cinco meses, divide o quarto da UTI com Jonathan no Hospital Infantil Varela
Santiago, onde estão internados. Ele também sofre as conseqüências do tabagismo
dos pais.
Mesmo com pouco tempo de vida, as duas crianças citadas acima
já apresentam sinais no organismo típicos de fumantes. Muitos dos casos que
chegam aos hospitais pediátricos estão relacionados às doenças respiratórias —
asma, bronquite, sinusite, pneumonia. Boa parte delas é provocada ou agravada
pela fumaça do cigarro daqueles que, sem um senso mínimo, fumam em casa, na
frente das crianças.
Uma pesquisa realizada no Hospital Universitário da
Universidade de São Paulo (USP) detectou que 24% das crianças de 0 a 5 anos de
idade apresentavam vestígios de nicotina no organismo, quando, na verdade, a
concentração deveria ser zero. Foram analisadas, numa primeira etapa, 78
garotos. Mais à frente, foram realizados exame de urina em mil crianças de uma
escola particular paulista. Os resultados apontaram que 51% deles são fumantes
passivos.
A presença de nicotina no organismo dessas crianças é o
primeiro passo para o vício futuro, pois ela atua diretamente no sistema nervoso
autônomo, além de ser uma substância cancerígena. Fumar durante a gravidez pode
gerar fetos anormais, nascimento prematuro ou até mesmo óbito. Durante a
amamentação, a mãe que fuma transmite nicotina para o filho.
O tabagismo
é considerado hoje a terceira maior causa de morte evitável no mundo, ficando
atrás apenas do tabagismo ativo e do consumo exagerado de álcool. Existem cerca
de dois bilhões de fumantes passivos no mundo. Desse total, estima-se que 70
bilhões são crianças. No Brasil, seriam 15 milhões. A Organização Mundial de
Saúde (OMS) considera o tabagismo uma doença pediátrica, pois a grande maioria
dos fumantes começa a fumar antes dos 19 anos.
Hospital
lotado
A pediatra e diretora médica do Hospital Infantil Varela
Santiago, Maria da Penha Paiva, diz não ter estatísticas de fumo passivo na
infância aqui no Rio Grande do Norte, mas confirma que a procura por tratamento
de doenças respiratórias em crianças é muito grande, e que a situação se agrava
ainda mais neste período do ano, de frio e fumaça dos festejos juninos.
“Quando a criança chega ao hospital com problemas respiratórios,
encaminhamos ao pneumologista. Depois, conversamos com os pais para orientar que
não fumem na frente do filho”, diz Penha Paiva. “Depois que a criança é
internada é que percebemos se a mãe é fumante ou não.”
A diretora médica
do Varela Santiago confirma também que a freqüência maior é de crianças na faixa
etária entre 0 e 5 anos. “A fumaça do cigarro também agrava a situação daquelas
crianças que já têm algum problema respiratório, como sinusite, asma, bronquite
e até mesmo pneumonia”, diz ela.
Parentes que
fumam
Maria das Graças, a mãe de Jonathan — aquele do início da
matéria — conta que fumou até o terceiro mês de gravidez, quando foi proibida
pelo médico de seguir no vício. O resultado disso tudo não tem sido nada
positivo. Ao dar entrada no Hospital Infantil Varela Santiago, seu filho foi
direto para a UTI, com sintomas de cansaço e pneumonia.
“Ele tosse muito,
o nariz fica escorrendo, fica com a respiração cansada e sem oxigênio. A médica
disse que se quisesse meu filho vivo tinha que parar de fumar”, diz Maria das
Graças. “Converso com meu marido para ele parar de fumar, mas o vício é uma
coisa nojenta.”
Já segundo Maria Fernandes Pereira, bisavó de José Érico,
também citado no início do texto, os pais da criança fumam muito. E por ser
pequena a casa onde moram, a poluição doméstica só piora. O garoto nasceu
prematuro, com sopro no coração e pneumonia, de acordo com a bisavó. Quando José
Érico receber alta, ela não vai permitir que seu bisneto volte mais para casa
com os pais fumando do jeito que fumam.
“Minha filha ainda fuma, mas já
mandei ela parar. Sei o que é isso, pois sempre fumei, mas faz treze anos que
parei. Nunca fumei na frente dos meus filhos”, diz Maria Fernandes.
Curiosidades
-O fumante passivo pode conter no
sangue, urina e saliva quantidade de nicotina equivalente à encontrada em
fumantes de um a dez cigarros por dia, dependendo do número de horas de
exposição à fumaça.
-O Brasil é o sexto maior mercado de cigarros do
mundo e, desde 1994, é o primeiro na exportação de folhas de tabaco, apesar de
ser o quarto maior produtor mundial.
- Um terço da população adulta fuma
no Brasil, o que representa 11,2 milhões de mulheres e 16,7 milhões de homens,
segundo a OMS e o Instituto Nacional do Câncer.
- O tabagismo causa cerca
de um milhão de mortes por ano na China. No país, morrem anualmente 100 mil
pessoas devido a doenças relacionadas ao tabagismo passivo.
- O Japão é
um dos países industrializados onde se consome mais cigarro, segundo a OMS. Os
42 milhões de viciados fumam uma média de 130 pacotes por ano. É o 3º consumidor
mundial de tabaco, atrás da China e dos EUA.
- A Rússia é o país com
maior percentagem de fumantes no mundo. Cerca de 70% dos homens e 30% das
mulheres fumam.
- No Chile, cerca de 14 milhões de pessoas morrem, a
cada ano, por causas atribuídas ao tabaco. O país tem a maior taxa de consumo de
cigarro na América Latina, com 42%, junto com a Argentina.
- A
Organização Mundial de Saúde indica que mais de 40 mil argentinos morrem
anualmente devido ao tabagismo.
- No México, o número anual de mortes
supera os 53 mil, numa média de 147 óbitos por dia.
- Em Honduras, são
consumidos anualmente cerca de 120 milhões de maços de cigarro e as crianças
começam a fumar aos oito anos.
- Em Cuba, mais de dois milhões de
pessoas fumam e 40% dos fumantes começaram entre 12 e 16 anos.
- A
Alemanha registra cerca de 140 milhões de mortes anuais em conseqüência direta
do cigarro. Um terço da população adulta fuma.
- Nas Filipinas, cerca de
60% dos homens são fumantes e o Estado filipino gasta cerca de US$ 1 bilhão com
despesas na área de saúde.
- Nas grandes cidades, o fumo polui mais
séria e nocivamente o ambiente do que as indústrias e os veículos automotores.
Cléia Amaral, pneumologista pediatra: “Filhos de pais fumantes
têm risco maior de ter pneumonia”
Trabalhando no Hospital
Infantil Varela Santiago e no Hospital Pediátrico da UFRN (Hosped), a
pneumologista Cléia Amaral atende constantemente casos de crianças, na faixa
abaixo dos cinco anos de idade, com complicações respiratórias decorrentes do
fumo passivo. Asma, bronquite, sinusite e pneumonia são as doenças mais
freqüentes em crianças que convivem com fumantes em casa. Confira trechos da
entrevista que a especialista concedeu ao TN Família.
TRIBUNA DO
NORTE - São freqüentes, em Natal, casos de crianças que precisam ser
internadas por problemas respiratórios causados pelo fumo
passivo?
Cléia Amaral – Isso acontece constantemente. Em
casos de crianças que não têm asma controlada, na maioria das vezes, os pais são
fumantes. Às vezes, a mãe até fuma com a criança nos braços. Termina que a
criança fica mais predisposta a ter infecções respiratórias, e até infecções
complicadas tipo pneumonia. As crianças que têm pais fumantes, principalmente a
mãe, têm um risco, em média, sete vezes maior de ter pneumonia do que aquela que
não convive com fumantes”
TN - Há casos de óbito
decorrente disso?
CA - Dependendo se a criança é
prematura, desnutrida, se ela já tem outros fatores de risco, se ela é
constantemente submetida à fumaça do cigarro, esse risco aumenta mais ainda.
Então, acontece de ter óbito sim. Não temos estatísticas nossas mostrando isso.
Mas, com certeza, tem uma co-relação.
TN – É dada alguma
orientação aos pais fumantes que chegam ao hospital com seus filhos
doentes?
CA – A mãe é orientada a não fumar dentro de
casa e sobre os riscos que a criança está sendo submetida. Mas, infelizmente,
isso é uma constante. Às vezes, por ignorância, a mãe acha que isso não
acontece.
TN – E qual o tratamento em casos de
complicação respiratória? Qual o procedimento quando a criança chega ao
hospital?
CA – Ela é internada e, normalmente, vai para
a hidratação venosa — pois a maioria, quando interna, é de casos complicados.
Quando é uma pneumonia mais simples, dá para tratar em casa; mas quando chega ao
hospital vai para a medicação venosa, antibiótico venoso, usamos medicação para
dilatar os brônquios, broncodilatadores, quando é necessário, do tipo
nebulização. E quando a criança está em condições, damos alta para manter o
tratamento em casa, pois na maioria das vezes não é necessário ela ficar
internada até curar totalmente. Geralmente, o tratamento termina em casa. Um dos
tratamentos também é a higiene ambiental, que é, justamente, esclarecer a mãe
para não fumar dentro de casa.
TN – Há muitos casos de
reincindência?
CA – Há sim, principalmente de crianças
asmáticas, que são as mais prejudicadas. O fumo é um irritante para os brônquios
de qualquer pessoa, tanto faz adulto ou criança. Termina que tem casos
repetitivos, desencadeados por fumaça e infecções virais.
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